À Mesa

Quando a fome encontra a abundância é sempre um encontro feliz. A fome rejubila pelo fim do jejum forçado e prolongado e sente, na abundância, o sabor a dobrar. Ao invés de pensarmos que a fome não tem sabor, apetece dizer que a fome sabe a tanto de tanto sonhar com os sabores da abundância. Foi no encontro feliz entre a fome e a abundância que descobrimos tantas coisas boas. Inexorável e indestrutível nos seus propósitos, a fome desde sempre exigiu sacrifícios. Nesse tempo sem tempo, algures na história da escassez, a morte do animal era vivida com angústia. Sim, a imensidão da abundância de um animal sacrificado era a alegria da comunidade.
Às vezes ponho-me a pensar como foi possível o mundo europeu ter sido feliz na sua aventura alimentar até ao século XVI. Afinal, somente algures nessa centúria recebemos a dádiva do tomate trazido da América Central pelos navegadores castelhanos. Digo isto porque verdadeiramente gosto muito de tomate e, sinceramente, acho que este fruto faz a diferença na alimentação. Aliás, a avaliar pelas 160 milhões de toneladas de produção mundial (posição cimeira na produção de vegetais) podemos dizer que ocupa um importante papel na cozinha de todo o mundo. Será da cor vermelha ou da textura suculenta e carnuda. Sei lá!
Ando a sonhar com maçãs desde que participei num encontro sobre produtos tradicionais onde se falou, também, de maçãs. Deu-me depois para andar pela cozinha a cheirar as maçãs tentando perceber porque, apesar das recomendações da minha avó que tanto insistia “come maçãs, assim manténs o hálito fresco e os dentes rijos”
O fascínio pela expressão atlântica da nossa dieta fruto da extensa costa rica em pescado leva-me pelo tema dos peixes e do receituário a eles associado. Desta feita são as caldeiradas. Não só porque as receitas são diversas e têm tradição no nosso receituário, mas porque são elas um exercício simpático e divertido de perceber que a tradição em algum ponto da linha do tempo foi inovação, máxima difícil de aceitar por alguns.
Às vezes, custa pensar que as divisões que injustamente criamos não permitem dar maior pujança e brilho a coisas que têm mais em comum do que a separá-las. Felizmente que na mesa o vinho não está só no copo, muitas vezes é a redução que dá maior sabor ao que está no prato. É o condimento líquido perfeito sempre à mão e que serve, hoje como no passado, para dar maior sabor aos alimentos.
Filho da Saudade, o queijo de Azeitão conta uma história linda. Não consigo, por isso, passar por aquele queijo de sabor picante e salgado sem sentir uma espécie de ternura. Afinal, só o temos porque alguém sentiu saudades do queijo que habitualmente comia na sua terra natal. A história conta-se assim.
Neste tempo frio e cinzento de paisagem ainda despida é um regalo passar junto às casas e olhar a mancha laranja que as laranjeiras nos dão. É um sol em cada quintal. Carregadinhas a fazer vergar os ramos, as laranjeiras lembram que este é o tempo de comer as laranjas. Diziam os antigos das terras planas do Mondego que “quem come laranjas antes do Natal ou é burro ou é animal”.
É certo e sabido que o “fiel amigo”, mais do que ser presença assídua nos nossos pratos, quase se senta à mesa connosco pois estamos sempre à procura de uma outra maneira de o cozinhar. De tal maneira, que parece que no que ao bacalhau diz respeito nunca se esgota a imaginação. Versátil, o bacalhau, literalmente, dá conversa a quem o cozinha.
Partes de um todo, este Pão Santoro ou, se pedido com carinho Santorinho, e os Bolinhos e Bolinhós são almas gémeas de uma mesma tradição a mostrar que o litoral e o interior não eram assim tão diferentes no sentir e no comer. O Portugal que nos une é mais forte do que a geografia que nos separa.
Mais do que nutrientes, os alimentos falam de sabores, de cheiros, de texturas que nos remetem para um contexto alimentar que se reconhece e promove a integração social e a preservação das tradições a par de uma alimentação saudável.
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