À mesa – As histórias que a mesa conta

A mesa é lugar de histórias, de narrativas com protagonistas, ação, princípio, meio e fim. Quem não se lembra da história do aviãozinho que as mamãs sorridentes nos contavam para que a colherzinha com sopa ganhasse vida e nos ajudasse a gostar de legumes e de fruta? Talvez o primeiro storytelling que ouvimos… e digam lá que não resultava?

Segundo os neurologistas, o sabor e a emoção são processados pela mesma parte do cérebro. Logo se ao primeiro juntarmos a segunda criamos uma ligação que dá contexto, criamos laços entre o sensorial e o emocional. Dá-se corpo ao sabor, fixa-se este na nossa memória. É, por isso, que gostamos tanto da comida das nossas mães, avós, tias, pais, amigos, de todos aqueles que cozinham para nós e nas receitas colocam o sentimento que nutrem por nós. É, por isso, que não esquecemos uma refeição em família ou com os amigos. Ao invés ninguém se lembra de uma refeição solitária. Porque haveríamos de recordar? Não tem emoção, não tem história. É esse o busílis da questão, a história e a narrativa que a compõe.

Usando uma metáfora gastronómica, se para sentirmos o sabor precisamos colocar sal na comida, para a fixarmos na nossa memória precisamos de uma história. Esta é para a memória o que o sal é para a comida. Sem este, o sabor não se pronuncia, antes passa discreto, ausente, desenxabido. O mesmo acontece com a história. Por isso, hoje mais do que nunca queremos contar uma narrativa através e dos produtos, receitas, alimentos. Precisamos encontrar o fio condutor que nos leva ao novelo e que queremos enrolar ou desenrolar para que aquela receita não nos abandone mais, mas permaneça como uma prova da nossa ligação ao lugar, às pessoas, à tradição ou ritual. Queremos ser parte da história, participar na aventura épica que fez aquela receita chegar até nós.

Não interessa apenas conhecer a biografia dos alimentos. Queremos mais. Hoje, queremos conhecer as pessoas que estão por detrás da receita. Quem produziu os produtos e as matérias-primas? Que paisagem os viu nascer? Quais as suas histórias de vida? Em que rituais familiares ou comunitários se inserem? Porque usaram certos produtos em vez de outros? O fio que enrola no novelo começa a sua viagem bem longe do prato e os comensais querem saber tudinho. Querem saber a história e partilhar daquele gosto, daquele momento, daquela intimidade. É disso que se trata, de uma intimidade que gera proximidade e confiança entre quem fala e quem ouve.

Mas contar uma boa história exige regras. Deve ter o tempo adequado para ser uma distração e não um enfado. Deve ser real. Nada pior do que descobrir de que aquela narrativa é uma ficção. Ainda que boa, não passa de um enredo ficcionado que não encontra simpatia por quem a ouve. Um aviso, portanto, evitem os mitos pré-concebidos e as “histórias da carochinha”.

As pessoas, hoje, são bem informadas. Por isso, deve ser consistente. Se falada na primeira pessoa, excelente. Se não, pelo menos interiorizem a emoção do protagonista. Sentem-no à mesa e que seja ele o anfitrião. Que seja ele a contar a história. Na valorização da nossa gastronomia, há que descobrir as histórias que são um pedaço da vida de cada comunidade e dar-lhes vida trazendo-as para a mesa. A narrativa faz-se com as pessoas, paisagens e rituais. Temos tudo, vamos lá deixar que elas se desenhem, saltem do prato e nos encantem?

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