À Mesa

Sabor doce a quebrar um quotidiano frugal e de trabalho, a uvada era símbolo de doçaria em mesa de Natal. Estes são registos maravilhosos de um povo que sempre se conseguiu exceder a si próprio na superação das dificuldades e que, para adoçar a vida, nunca se esquivou a uma surpreendente criatividade.
O melão Casca de Carvalho produzido, sobretudo, no Vale do Sousa, Vila Verde e Barcelos consegue surpreender. À primeira dentada parece até que o melão está demasiado maduro, pica na boca, estranha-se. Felizmente, que rapidamente, à terceira dentada, se entranha. Vendido a um preço muito para além do habitual, na mesa nortenha este melão é rei mostrando que o sabor é uma coisa estranha, admite regionalismos e depende muito da educação e da criação.
O céu que deixamos para trás, na verdade, não nos traz tristeza pela despedida, mas aproxima-nos do horizonte, da linha em que o sol beija a terra ou o mar. Deixamos para trás um céu para logo descobrirmos outro de cores ainda mais intensas mostrando que vale a pena seguir o horizonte como o lugar onde a surpresa nos faz sorrir. Deixamos um pedaço de Portugal para logo descobrirmos outro.
Neste tempo que convida a olhar a cozinha como companhia e as panelas como abrigo da nossa inspiração, lembrei-me de como as receitas inundam as redes sociais. Estamos cada vez mais próximos uns dos outros. Queremos que na nossa cozinha e sala de jantar esteja o mundo todo, o mundo que nos acolhe e com o qual vamos partilhando as dores e alegrias dos nossos dias.
Há muito que queria contar esta história. A linda história das Cavacas. Mas tinha que esperar pelo tempo em que elas são rainhas, o tempo das romarias. Nascidas na simplicidade da massa singela de ovos, açúcar e farinha adornada e adoçada pelo branco da calda do açúcar, as Cavacas fazem uma longa viagem pelo mundo da doçaria alcançando a sumptuosidade tão presente no amarelo tentador das que são famosas em Resende.
Sem sabermos muito bem como, deixamo-nos seduzir pelos produtos tradicionais. É como se eles representassem o mundo que há muito deixámos e incluíssem as memórias que teimamos em manter na nossa identidade. Através deles sentimos a ligação com as nossas origens familiares, com os cheiros e os sabores bons da infância, tenha esta sido idílica ou menos boa.
Tudo começou com as Perinhas Dormideiras que constam no Caderno das Coisas de Conservas do Livro de Cozinha da Infanta D. Maria. Ao passar os olhos nas repetidas vezes que li aquele livro sempre sorria ao ler o nome daquela receita. Mais do que o diminutivo perinhas era a designação dormideiras que me fazia sorrir. Interrogava-me acerca do mesmo.
Pela primeira vez entendeu-se a Região de Coimbra como ela é verdadeiramente. Um território onde a identidade se faz de diferenças que não se atropelam, mas antes se complementam. Ao invés de territórios muralhados pelos sabores locais, espécies de baluartes solitários, foram esses sabores parte de um mesmo modelo alimentar que, no passado como agora, não diferia assim tanto do mar para a serra.
A gastronomia reconhecida como património cultural imaterial é uma vasta, rica e complexa teia de elementos que de forma física, objetiva e sensorial refletem a história e cultura de um povo que, de forma natural, se foi transmitindo ao longo de séculos de geração em geração.
“A fome é má conselheira” diziam os antigos. Talvez, por isso, antes de tudo convém aconchegar o estômago e dar algum sustento ao corpo e à mente. E porque “casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão” a alimentação acompanha-nos em todos os momentos da nossa vida, ainda que “a casamento e batizados só vais se fores convidado”.
Do NOT follow this link or you will be banned from the site!