Raças autóctones

Mapa Portugal Gastronómico – Raças Autóctones

O Mapa das Raças Autóctones construído com a informação fornecida pela Direção Geral de Agricultura mostra a distribuição das raças bovinas, caprinas, ovinas e suínas pelo território nacional. A leitura sobre a descrição das raças na plataforma tradicional.pt, elaborada pela Direção-Geral de Agricultura, permite-nos concluir que a localização das raças não é aleatória e não esteve apenas sujeita à migração e cruzamentos das espécies, mas está muito relacionada com a adaptação das mesmas às condições geográficas como o relevo, o clima, o tipo de alimento disponível. Por isso, cada uma das raças incluídas neste Mapa tem uma razão para se ter desenvolvido e integrado no respetivo território. Há, à partida, uma ligação forte entre a raça e o território que lhe serve de habitat sendo que, para além da ligação cultural (receituário, aspetos devocionais e culturais de oferta) é grande a interdependência entre raça e área geográfica sendo que esta influencia as caraterísticas da mesma.

A análise à distribuição das raças referidas permite concluir, em primeiro lugar, a preponderância da Região de Trás-os-Montes no que respeita à diversidade e a quantidade de raças autóctones. Nos bovinos, registamos as raças Barrosã, Mirandesa e Maronesa; nos caprinos, as raças Bravia Barroso, Caprina Preta Montesinho e Serrana; nos ovinos, as raças Bordaleira Entre Douro e Minho, Churra Badana, Galega Bragançana Preta, Galega Bragançana Branca, Churra Terra Quente e Churra Galega Mirandesa; nos suínos, a raça Bísaro. Sendo que a região de Trás-os-Montes se distingue no conjunto do território nacional, uma análise a esta região mostra uma surpreendente concentração de raças ovinas com diferenças óbvias entre elas. O conjunto de todas as raças (ovinas, caprinas, bovinas e suínas) evidencia as diferenças de clima e de relevo daquela região que permitiu a adaptação e a conservação de todas estas raças.

Ainda que sem aprofundar as consequências da presença destas raças no receituário transmontano, sabemos, no entanto, que a riqueza do fumeiro daquela região é muito devedora da raça que lhe dá suporte (porco Bísaro). Também a presença das raças Barrosã, Maronesa e Mirandesa criaram reputação na reputação do receituário àquelas associadas e, ainda, deram origem a respetivas carnes DOP. 

No Minho, sobressai a diversidade de raças bovinas como a Cachena, Minhota, Barrosã e Maronesa. Já Amorim Girão no seu Atlas de Portugal[1], Mapa nº 25 referente à Criação de Gado, tomando as estatísticas existentes do número de efetivos bovinos refere o Minho como a região que apresenta maior produção bovina. Justifica o fato pelo clima húmido que favorece a existência de prados abundantes para alimentação dos animais. Ainda que o nosso Mapa das Raças Autóctones não tome como base os números de produção bovina, o fato desta região aglomerar tantas raças bovinas diz muito sobre as condições favoráveis à criação desta espécie e reforça as ideias apresentadas por Amorim Girão.  

Esta diversidade na região do Minho a juntar à referida à enunciada para Trás-os-Montes no que a bovinos diz respeito, leva-nos a concluir que o Norte de Portugal (Minho e Trás-os-Montes) apresenta-se como local rico de diversidade genética de raças autóctones. O Mapa evidencia maior mancha para esta zona de Portugal sendo que a Sul, na enorme extensão que é ocupada pelo Alto Alentejo, Alentejo Central e Baixo Alentejo é notória a menor diversidade de raças, ainda que, tenhamos o predomínio das raças Mertolenga, Alentejana, Preta e Bravo de Lide.

Em nossa opinião, a presença de raças caprinas no território nacional é coincidente com as caraterísticas do relevo de Portugal. Assim, percebemos que, de acordo com o já enunciado por Amorim Girão no seu Atlas de Portugal o predomínio do gado caprino ocorre nas ”(…) zonas montanhosas ou charnequeiras, pouco cultivadas e pouco povoadas.”[2] De fato, encontramos em Trás-os-Montes as raças caprina Preta de Montesinho, a Serrana e a Bravia Barroso; no Minho-Lima, Cávado e Ave a raça caprina Bravia Minho; na Beira Interior Norte as raças Charnequeira Beiroa e Serrana; Alentejo Litoral a raça Charnequeira Alentejana; no Baixo Alentejo a raça Serpentina e no Algarve as raças Charnequeira e a Caprina Algarvia. De notar que as designações das raças caprinas denotam a geografia associada à montanha (Serrana) e à charneca (Charnequeira). Esta distribuição está muito relacionada com o fato de o gado caprino se adaptar mais facilmente a locais de relevo difícil e a uma alimentação pobre tão caraterística da Charneca. Facilmente, pela sua anatomia, ultrapassa as dificuldades de relevo e não é muito seletiva na alimentação.

Talvez pelo que foi referido anteriormente, na planície do Alto Alentejo e do Alentejo Central não temos a presença de qualquer raça autóctone caprina, o mesmo acontecendo na lezíria do Tejo onde não se regista nenhuma raça caprina. Somente o Alentejo Litoral tem a presença da raça caprina Charnequeira Alentejana e o Baixo Alentejo tem a raça Serpentina. Em contraste, outras zonas de relevo mais acidentado contam com o destaque de raças autóctones caprinas. É natural esta diferença, pois a cabra carateriza-se pela sua anatomia por ser um animal que sobrevive facilmente em locais escarpados e que se contenta com uma alimentação pobre. Por isso, compreende-se que não domine na planície alentejana cujas condições geográficas de relevo e de clima (que favorece uma alimentação mais rica e variada) permitem a criação sem dificuldades de ovino. No Alentejo Central, Alentejo Litoral e Baixo Alentejo temos as raças ovinas Merina Preta, Merina Branca e Saloia, sendo de acrescentar, ainda, nesta última região a raça Campaniça; no Alto Alentejo, temos somente a raça Merina Branca. A par das raças de bovinos Preta, Bravo de Lide, Mertolenga e Alentejana, as planícies alentejanas favorecem a criação de muitos rebanhos das raças enumeradas estando, como já referido, os caprinos quase ausentes desta região. Tal é muito notório no receituário alentejano onde a par da carne de porco da raça alentejana, sobressai a carne de carneiro e de borrego.

Ainda importa referir que a presença de muitas raças autóctones ovinas no Alentejo é coincidente com a qualidade e reputação dos queijos do Alentejo, nomeadamente, o Queijo de Serpa DOP, o Queijo de Nisa DOP e os Queijos de Évora DOP. O mesmo acontece com os queijos Serra da Estrela DOP cujo leite deriva da raça Serra da Estrela tão presente na região da Serra da Estrela. Também na Beira Baixa é possível verificar a coincidência entre a presença de raças autóctones e a produção de queijos com reputação como acontece com os queijos da Beira Baixa que incluem o Queijo Castelo Branco DOP, Queijo Amarelo da Beira Baixa DOP e o Queijo Picante da Beira Baixa DOP, estes dois últimos com leite de ovelha e de cabra. De fato, é interessante perceber a concentração de raças ovinas na Beira Interior Sul sendo que se verifica a presença das raças ovinas Merina Branca, Merina Preta, Saloia, Merina Beira Baixa (esta muito conhecida por ter a lã mais fina do país) e Churra Campo (raça caraterizada pela rusticidade que lhe permite sobreviver em meios pobres em pastagens). Numa zona onde os queijos com Denominação de Origem Protegida incluem a mistura de leite de ovelha e de cabra, é de notar a raça caprina Charnequeira Beiroa.

Para terminar, há que referir a presença na Península de Setúbal das raças autóctones ovinas Merina Branca e Saloia sendo, por isso, de considerar tal fato nas caraterísticas e reputação do Queijo de Azeitão DOP. Aliás, é de referir que animais da raça Saloia, cujo nome deriva do fato do seu solar se concentrar na zona dita saloia de Lisboa (arredores), foram deslocados da sua origem para a Serra da Arrábida devido à necessidade de leite para a produção de Queijos de Azeitão. 

Apesar de, na maioria dos casos referidos, os cadernos de especificações não referirem a utilização de leite destas raças autóctones na produção dos queijos DOP, é do senso comum a convição de que as diferenças organolépticas entre estes não resultam só dos pastos, mas também estão relacionadas com as singularidades associadas às raças tão predominantes nas regiões referidas. Adiantamos a hipótese de que, porventura, as DOP referidas teriam ficado mais completas se se tivesse tido em conta as especificidades das raças autóctones predominantes. Queremos com isto acentuar a relação entre a predominância das raças referidas e as respetivas regiões e os produtos a que dão origem como queijos ou carne.  

A ligação entre as raças autóctones e os queijos é muito notória em Trás-os-Montes sendo que o Queijo de Cabra Transmontano DOP é produzido a partir de leite de cabra da raça autóctone Serrana e o Queijo Terrincho é produzido com leite de animais ovinos Churra Terra Quente conhecida localmente como Terrincho. Nestes dois casos é assumida a especificidade do produto como consequência do leite de raças locais. Ainda de referir que a raça Serrana dá origem a outros produtos qualificados como o Cabrito Transmontano DOP, o Cabrito do Barroso IGP.

A relação apontada entre o predomínio de raças ovinas e a produção de queijos qualificados e a análise à distribuição das espécies ovinos no Mapa das Raças Autóctones também nos permite perceber que o gado ovino se distribui, sobretudo, no interior. Já Amorim Girão no seu Atlas de Portugal, Mapa nº 25 referente à Criação de Gado refere que o gado ovino “foge das zonas litorais, com excepção da «Terra Saloia», assume particular importância nas montanhas e planaltos do Nordeste e nas regiões alentejanas do interior.”[3] De fato, o Mapa das Raças Autóctones mostra uma divisão longitudinal no Mapa de Portugal, sendo que o interior apresenta maior concentração de raças ovinas, sobretudo, Trás-os-Montes, Serra da Estrela, Beira Interior Sul e Alentejo.  

Ainda que não tenham sido objeto de processos de qualificação, os queijos serranos da zona do Caramulo são bastante conhecidos e estão diretamente relacionados com o predomínio da cabra em zonas montanhosas de relevo difícil e de alimentação parca e pobre nada favorável a outras espécies pecuárias mais exigentes na questão alimentar. Sendo a cabra um animal que facilmente se adapta a estas condições, são abundantes os rebanhos de cabras dando origem ao leite com que se faz o queijo e aos cabritos assados que dão fama à Serra do Caramulo.

O Algarve tem no seu território as raças caprinas Algarvia e Charnequeira sendo que a serra algarvia proporciona a existência de rebanhos de cabras pela facilidade destas na adaptação aos magros recursos alimentares aos quais aqueles animais facilmente se adaptam. Também os queijos de cabra do Algarve estão muito ligados ao modo de vida rústico das populações da serra algarvia e detêm forte reputação.

Ainda que sem nenhuma raça caprina associada, o território do Pinhal Interior (Norte e Sul) é conhecido pelo predomínio de animais caprinos devido às caraterísticas do relevo que facilitam, sobretudo, a exploração florestal e a caprinicultura. Neste contexto territorial é notória a influência desta, quer na confeção de maranhos (bucho feito com o estômago da cabra e recheado com carne de cabra e arroz), quer no cabrito estonado tão caraterístico da região de Oleiros, quer na tigelada feita com leite de cabra, quer ainda com os queijos de cabra que aqui predominam. 

Dada a ligação à origem muito relacionada com fatores geográficos ou de reputação, o conjunto das raças autóctones apresentadas dão origem a vários produtos com qualificação, quer DOP, quer IGP. Tal insere-se dentro da política de qualificação dos produtos tradicionais afirmando-se a sua singularidade, quer por via de fatores relacionados com o clima, solos, relevo, etc, quer fatores relacionados com a reputação do produto. As raças autóctones, pela especificidade de ligação à origem geográfica e à dependência daquelas com o meio onde se inserem, resultam naturalmente em produtos de origem protegida. Assim, para além dos queijos já referidos, outros produtos resultam das raças autóctones. Um dos exemplos é o cabrito da Beira IGP obtido de animais das raças caprinas Serrana ou Charnequeira ou do cruzamento destas e predomina na Beira Interior Norte e Sul, Cova da Beira e Serra da Estrela, área de influência destas raças.  

Temos, ainda, o Cabrito da Gralheira IGP obtida a partir da raça Serrana que predomina nas Serras do Norte da Beira Litoral como as Serras da Gralheira, Montemuro e Nave. Do mesmo modo, encontramos o Cabrito das Terras Altas do Minho obtidas a partir das raças Bravia e Serrana e seus cruzamentos (Alto Minho e Noroeste de Trás-os-Montes). Com classificação Indicação Geográfica Protegida (IGP) encontramos o Cabrito de Barroso que provem de animais das raças Serrana e Bravia e seus cruzamentos. A especificidade que levou à classificação IGP deriva, sobretudo, da forma como os animais são criados e, ainda, pelo fato de o cabrito do Barroso deter grande reputação no conjunto da cultura gastronómica local. A carne de Cabrito do Alentejo IGP é obtida a partir de animais da raça Serpentina ou de cruzamento com pai de raça Serpentina cuja especificidade advém da alimentação da alimentação da mãe que influencia na alimentação de leite materno. Este Cabrito predomina no Baixo Alentejo, precisamente na área de influência da raça Serpentina.

No que respeita às raças de ovinos também estas dão origem a produtos DOP ou IGP como o Borrego da Beira IGP ou, como também é conhecido, como “Borrego da Canastra” ou “Borrego de Leite” obtido da exploração das raças Churra do Campo, Churra Mondegueira, Merino da Beira Baixa e seus cruzamentos e predomina na Beira Interior Norte e Sul, precisamente, na área de influência das raças referidas. O Borrego de Montemo-o-Novo IGP está relacionada com a raça ovina Merino Branco e a sua área de produção está centrada em redor de Montemor-o-Novo. A influência das raças Campaniça e Merino Branco no Baixo Alentejo levou ao Borrego do Baixo Alentejo IGP que deriva destas ou de cruzamento com outras raças não autóctones. No distrito de Portalegre foi reconhecido o Borrego do Nordeste Alentejano IGP que deriva da raça Merino Branco.

Diretamente ligado à raça Serra da Estrela que dá origem ao Queijo Serra da Estrela temos o Borrego Serra da Estrela DOP. Do mesmo modo, a partir de animais da raça Churra da Terra Quente deriva o Borrego Terrincho DOP. Tal designação decorre do fato de que quando a raça Churra foi introduzida na região da Terra Quente Transmontana, os primeiros ensaios foram feitos na Quinta da Terrincha, por ordem do seu proprietário, sendo que os animais daí resultantes ficaram conhecidos como Terrinchos. O Cordeiro Bragançano DOP deriva da raça ovina Churra Galega Bragançana e está confinada aos limites da Terra Fria transmontana sendo que esta raça se adaptou às condições climáticas desta região de Trás-os-Montes. O Cordeiro do Barroso IGP é obtido do cruzamento dos animais das raças Churra Galega e Bordaleira de Entre Douro e Minho e domina na área de influência destas raças. Da raça Churra Galega Mirandesa deriva o Cordeiro Mirandês/Canhono Mirandês DOP sendo que ocupam a área geográfica de influência da raça que lhe dá origem. É de notar que a especificidade deste Cordeiro Mirandês DOP está relacionado com a raça que lhe dá origem e com a alimentação proporcionada pelos recursos existentes no Planalto Mirandês. 

As duas raças de suínos predominantes em território nacional também dão origem a carnes DOP como acontece com a Carne de Bísaro Transmontano/Carne de Porco Transmontano DOP que derivam da raça Bísaro e está confinada à área geográfica de Bragança e de Vila real. Esta raça é descrita como estando muito bem adaptada à rusticidade da região, ao clima agreste e aos alimentos locais. Da especificidade desta raça que dá origem a esta carne DOP está a alimentação que é baseada nos recursos locais como a castanha. Já a raça alentejana que dá origem à Carne de Porco Alentejano DOP tem como uma das especificidades a alimentação local onde sobressai a bolota e a lande, frutos do montado. 

A propósito das raças suína Bísaro e Alentejana é importante referir o extenso conjunto de produtos DOP e IGP que cada uma delas dá origem. Ainda que o rol seja extenso, tal só vem provar a importância da raça na qualidade e singularidade associada a cada um dos produtos enunciados. Da raça suína Bísaro tem origem a Alheira Barroso-Montalegre IGP, a Alheira Mirandela IGP, a Alheira de Vinhais IGP, o Butelo de Vinhais IGP também conhecido como Bucho de Vinhais ou Chouriço de Ossos de Vinhais IGP, o Chouriço de Carne Barroso-Montalegre IGP, a Chouriça de Carne de Vinhais IGP também conhecida como Linguiça de Vinhais IGP, a Chouriça Doce de Vinhais IGP, o Chouriço Azedo de Vinhais IGP também conhecido como Azedo ou Chouriço de Pão de Vinhais IGP, o Chouriço de Abóbora de Barroso-Montalegre IGP, o Presunto de Melgaço IGP, o Salpicão de Barroso-Montalegre IGP, o Salpicão de Melgaço IGP, o Salpicão de Vinhais IGP, Sangueira de Barroso-Montalegre IGP. Todas estas DOP ou IGP referidas, mostram, no entanto, o quanto do fumeiro transmontano que deriva da raça Bísaro está ausente da qualificação pois quase todas elas se centram em Vinhais, Barroso-Montalegre e Melgaço.    

A Sul e por influência da raça suína Alentejana encontramos a Cacholeira Branca de Portalegre IGP, o Chouriço de Barrancos, o Chouriço de Carne de Estremoz e Borba IGP, o Chouriço de Portalegre IGP, o Chouriço Grosso de Estremoz e Borba IGP, o Chouriço Mouro de Portalegre IGP, a Farinheira de Estremoz e Borba IGP, a Farinheira de Portalegre IGP, a Linguiça de Portalegre IGP, o Lombo Branco de Portalegre IGP, o Lombo Enguitado de Portalegre IGP, a Morcela de Assar de Portalegre IGP, a Morcela de Cozer de Portalegre IGP, a Morcela de Estremoz e Borba IGP, a Paia de Estremoz e Borba IGP, a Paia de Lombo de Estremoz e Borba IGP, a Paia de Toucinho de Estremoz e Borba IGP, o Painho de Portalegre IGP, o Paio de Beja IGP, O Presunto de Barrancos/Paleta de Barrancos DOP, o Presunto de Santana da Serra IGP também conhecido por Paleta de Santana da Serra IGP, o Presunto do Alentejo DOP também conhecido por Paleta do Alentejo DOP. À semelhança do referido para o fumeiro de Trás-os-Montes também no Alentejo se percebe a incidência das DOP e das IGP no território de Portalegre (Alto Alentejo) e Estremoz e Borba (Alentejo Central) ficando de fora muitos enchidos, ensacados e produtos de charcutaria da rica gastronomia alentejana.    

No que diz respeito aos bovinos, as raças autóctones que se distribuem pelo território resultam em carnes DOP e IGP sendo que a área geográfica das segundas são, de forma natural, um decalque da área geográfica das primeiras. Apesar de só tardiamente a carne de bovino ter integrado a mesa dos portugueses dado os animais estarem, sobretudo, destinados para o trabalho agrícola, a carne bovina começa a ser muito valorizada detendo grande reputação até no estrangeiro. Assim, a maioria das raças bovinas viu classificada a carne dos animais como produtos DOP ou IGP.

A partir de bovinos da raça Alentejana foi classificada a Carnalentejana DOP cuja especificidade está na alimentação baseada em recursos locais e abrange a área geográfica do Alentejo Central, Litoral e Baixo e Alto. A carne Arouquesa DOP deriva de animais bovinos da raça Arouquesa e tem a sua área geográfica diretamente relacionada com a da raça que lhe dá suporte sendo de notar que é uma raça que anatomicamente se adaptou às caraterísticas geográficas de relevo acidentado e difícil das Serras que circundam a sua área geográfica (Freita, Montemuro, Arada, Aboboreira, Caramulo e Marão) sendo extraordinária na realização dos trabalhos agrícolas em zonas tão íngremes e rochosas. A Carne Barrosã vem de animais da raça Barrosã e está confinada ao Planalto do Barroso e ao Minho sendo que a sua especificidade advém da alimentação que, no Planalto do Barroso, é de feno e, no Minho, é de forragens verdes, palhas de milho e azevém. Solos, relevos e climas diferentes resultam em tipos diferentes de alimentação.

A Carne da Cachena da Peneda DOP é obtida a partir de animais da raça Cachena sendo que estes se caraterizam por serem de pequeno porte e, por isso, adaptados ao relevo da sua área geográfica de influência e, ainda, pelos cornos espiralados que serviam para proteger as crias dos lobos. A Carne da Charneca DOP deriva de animais da raça Preta (Gado da Terra) e a sua área geográfica engloba toda a área de influência da raça Preta, ou seja, Lezíria do Tejo, Alto Alentejo, Alentejo Central e Península de Setúbal. A Carne de Bravo do Ribatejo DOP obtida de animais da raça Bravo de Lide apresenta-se com caraterísticas relacionadas com o porte atlético dos animais que lhe dão origem. Esta carne tem a sua área geográfica na Lezíria do Tejo, no Alentejo Central e Litoral, Baixo e Alto Alentejo e na freguesia de Arazede no concelho de Montemor-o-Velho, que coincide com a área da raça Bravo de Lide. A Carne Marinhoa DOP deriva da raça bovina Marinhoa cuja designação advém da região onde se encontra grande parte dos efetivos desta raça, a bacia hidrográfica do Vouga designada localmente como Marinha.

A Carne Maronesa DOP é obtida a partir de bovinos da raça Maronesa e a sua área geográfica coincide com a da raça que lhe dá origem, as Serras do Marão, Alvão e Padrela. A rusticidade desta raça é confirmada pelo fato de ter sido introduzido numa área tão hostil como a Serra do Marão e aí ter sobrevivido e desenvolvido com caraterísticas específicas. A Carne Mertolenga DOP que deriva de animais da raça Mertolenga tem como área geográfica a mesma que carateriza a raça que lhe dá origem, Alto e Baixo Alentejo, Alentejo Central, Lezíria do Tejo e Península de Setúbal. A designação Mertolenga está diretamente relacionada com o fato desta raça, que tão facilmente se adapta a solos rochosos e de pouco recursos alimentares, ser proveniente de Mértola e Alcoutim e ter sido a partir desta região que derivou por toda a zona Sul abaixo e acima do Tejo. A Carne Mirandesa DOP é obtida de bovinos da raça Mirandesa e a sua singularidade advém das caraterísticas da raça e da alimentação disponível nos campos cultivados e os lameiros do nordeste transmontano.

Após uma análise ao Mapa das Raças Autóctones, quer no que respeita à sua distribuição geográfica, quer no que respeita à interdependência entre as raças, o território e os produtos a que dão origem, podemos concluir que a região do Algarve é pouco considerada e citada. Pelo que nos é dado a conhecer sobre o desenvolvimento e manutenção das raças no território nacional percebe-se que as raças autóctones algarvias sofreram um processo de desinvestimento sendo que, algumas delas, se encontravam em vias de extinção. A excessiva enfâse na promoção turística do território algarvia poderá ter conduzido à desvalorização dos recursos locais como os associados às raças autóctones. Para além da quase rotura de efetivos, também não foram desenvolvidos processos a favorecer os produtos derivados destas raças. Apesar destes constrangimentos, importa acentuar a presença da raça bovina Algarvia, as raças caprinas Algarvias e Charnequeira e as raças ovinas Churra Algarvia e Merino Branco. A raça ovina Churra Algarvia apresenta caraterísticas de grande resistência e predomina nas zonas do litoral e barrocal sendo aí que têm as melhores condições para a sua expansão. A raça bovina Algarvia que esteve quase em vias de extinção estando neste momento em período de recuperação. Os animais da raça Algarvia, subespécie da raça Alentejana predominante em quase todo o território alentejano, são utilizados exclusivamente para a produção de carne. A raça caprina algarvia caraterizam-se pela corpulência dos animais, demonstram aptidão para a carne (cabrito) e o leite (queijo de cabra algarvio já referido) e predominam na zona serrana e no barrocal. O predomínio nestas zonas do território algarvio de relevo mais acidentado é coincidente com as caraterísticas dos caprinos que demonstram maior adaptação, quer ao relevo, quer à alimentação disponível.

No conjunto das raças presentes no Alentejo Litoral importa falar da raça bovina garvonesa que, no conjunto do território alentejano, apenas tem presença junto ao litoral. Para tal fato concorre o fato desta raça, espécie de transição entre as raças Alentejana e Algarvia, ter recebido a designação pela feira onde o respetivo gado era transacionado, a Feira de Garvão em Ourique. A robustez, aptidão para o trabalho e adaptação a uma alimentação pobre, levavam a que fossem bastante procurados.

Após a análise ao Mapa das Raças Autóctones é notório a relação entre estas e o território que constitui o seu habitat. De fato, ainda que levadas pela migração natural das raças ou pela introdução por ação humana, as raças ovinas, caprinas, bovinas e suínas apresentam singularidades que derivam do território, quer pela adaptação anatómica ao relevo e ao clima, quer pela adaptação aos recursos alimentares. Ou seja, os animais desenvolvem caraterísticas físicas que as aproximam das condições da geografia local. Ainda é de enfatizar a relação que estas raças mantêm com o território de origem no que respeita à designação pela qual são conhecidas. A designação maronesa advém da proximidade com a Serra do Marão, a raça Caprina Algarvia da região onde está situado o habitat, a raça bovina garvonesa adquiriu a designação graças à feira onde o gado era transacionado, a raça Caprina Charnequeira deve a designação à caraterísticas de Charneca de onde os animais eram originários, etc. Ou seja, seja pela toponímia ou por um qualquer elemento geográfico as raças apresentam designações que fazem perceber a ligação umbilical ao território.


[1] GIRÃO, Aristides de Amorim. Atlas de Portugal. Coimbra : [s.n.], 1941, Mapa nº 25.

[2] GIRÃO, Aristides de Amorim. Atlas de Portugal. Coimbra : [s.n.], 1941, Mapa nº 25.

[3] GIRÃO, Aristides de Amorim. Atlas de Portugal. Coimbra : [s.n.], 1941, Mapa nº 25.

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