Diário – Da ignorância ao conhecimento

Não sei, mas acho que, às vezes, preferia a ignorância ao conhecimento. Viver sobre a pressão do conhecimento tira-nos anos de vida e bem-estar. Só digo isto porque cansa todo o ruído que anda no nosso encalço. Precisamos definir caminho, mas não diabolizando o momento, não vale a pena ver o negro onde apenas está a realidade. São conhecidos os episódios maus da história em que assistimos ao pior que o ser humano pode mostrar. Mas em todos eles, assistimos também ao melhor que cada um pode dar. Em tudo de mau que já aconteceu na história sobreviveu o caráter humano, respirou o humanismo.

Por isso mesmo porquê fazer tanta previsão negativa sobre o momento que estamos a viver? É certo, é um abanão ao mundo, à ordem estabelecida, aceite e praticada. É um tumulto que tomou a forma de onda que vai de uma ponta à outra do globo, mas apesar de tudo não está tudo perdido. A crise sanitária, económica, social deixa-nos perdidos, sem chão pela ausência das certezas que no davam conforto.

Foto de Olga Cavaleiro

Mas lá está, o humanismo nunca nos abandonou, nunca abandonou o mundo. Em Portugal, por exemplo, várias têm sido as campanhas para aliviar quem sofre, quem sente de forma intensa o tumulto económico para além do sanitário. Não precisamos, por isso, de previsões que não nos deixem ver as oportunidades. 

Depois, também não vale a pena falar da forma como a tecnologia pulveriza a nossa vida como se isso fosse a pior coisa do mundo. É claro que estamos dependentes, que os miúdos que estão com o ensino à distância sentem imensas dificuldades, que o teletrabalho é mais cansativo que o ir a correria do dia-a-dia, que vamos gritar os nossos anseios e as nossas conquistas para as redes sociais. É certo que a tecnologia ganha espaço na nossa intimidade. É certo que sim, que podemos cair no exagero.

Mas não podemos esquecer como as redes sociais e a diversidade tecnológica à nossa disposição nos resgataram do isolamento social, nos permitiram chegar aos clientes face ao encerramento de pastelarias e restaurantes, como nos deixaram salvar a produção nacional. O facto de, ultimamente, recorrermos à tecnologia e ela estar quase dentro de nós e nos nossos sonhos isso não significa que não saibamos parar quando for necessário. 

Motivos não nos faltam para ficarmos preocupados. Mas também não nos faltam motivos para olharmos o dia-a-dia com o olhar do agora, do momento que não se repete. Uma coisa é certa, estamos sedentos de proximidade, de toque de pele, de olhos nos olhos. Estamos com fome de nos sentirmos em grupo. Isso significa que somos humanos. Acredito muito que, para além das previsões, os homens e mulheres deste mundo vão surpreender pelas soluções, pela capacidade adaptação, pela inovação. Quero participar nisso e ver a cor para além do negro. 

Texto publicado no site: https://etaste.pt/ # resistir 2020

Partilhe nas redes:
Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp
Share on pinterest
Share on email
Tags:

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Do NOT follow this link or you will be banned from the site!