Diário – A casca do caracol

É nestes dias de Abril em que a chuva vai e vem que o cheiro a terra molhada nos lava a alma mais do que as gotas de água que caem do céu. Há aquele desprender em relação ao mundo e a todas as coisas que nele nos pesam. A chuva não se faz notar, mas alivia o cinzento carregado e dá lugar ao azul celeste. Nestes dias, os meus passeios são sempre com companhia. Ao longo do caminho de terra batida vou encontrando solitários caracóis que no seu passo lento vão conquistando sempre mais um bocadinho de caminho. Como eu gosto desta companhia.

Foto de Olga Cavaleiro

Aliás, às vezes até me meto com eles e bato-lhes na sua casca à espera que eles me respondam. É claro que a única coisa que consigo é assustá-los, pois logo se retraem e batem em retirada para dentro do seu abrigo. Mas, a verdade é que quando faço isto sorrio sempre pela forma como os sinto a responderem-me. Sempre achei que a sua casca era muito mais do que uma casa para onde se recolhem quando têm medo ou sentem perigo. Vejo-o mais como o sítio onde recolhem para pensar melhor, para se esconder do ruído que inibe a reflexão. Gosto de sentir dentro de mim uma casca como a do caracol que me protege sempre que é preciso.

Não que seja para me esconder do mundo, mas que me previne de falar mais do aquilo que é preciso. Que me obriga a pensar na informação que nos chega. Falei há algumas páginas que vivemos numa espécie de mundo ao contrário. Talvez não, talvez ele esteja na posição certa. Talvez sejamos nós o elemento disruptivo. Guerra diplomática entre a China e os USA. Nada de novo, apenas precisavam de um motivo. Cruzamento em falência dos modelos económicos. Nada que nos espante, há muito que se esperava.

A insignificância do indivíduo perante um eu gigante, a ordem que nos ultrapassa. Bom, que dizer que não seja que os deuses têm pés de barro. No meio de tudo isto, o tempo segue o seu caminho com novos problemas como há 100 anos atrás. Parece uma verdade que todos reconhecem, mas é verdade é que é verdade. Nessa altura, se calhar alguém escreveu que se vivia uma espécie de mundo ao contrário. Tenho a certeza que sim. Pelas incertezas e, sobretudo, pela mudança de modelos. Como se viu, o mundo não acabou. Mudou, mas não acabou.   

Tudo fica mais fácil quando pensamos melhor o assunto. Quando deixamos de fazer pingue pongue e o reservamos no nosso íntimo. Quando deixamos de ter medo que nos tire o sono e nos habituamos à sua presença. #resistir é também pensar, maturar, deixar assentar para se ver com mais clareza. E o caracol é uma boa companhia. Determinado, faz o seu caminho. Reserva-se à solidão sempre que necessário, não à espera que a tormenta passe, mas para que quando tiver que a enfrentar seja com a força e determinação necessárias. Para além da reação necessária e antecipação dos problemas, sinto que a casca do caracol me pode ser útil.  

Texto publicado no site: https://etaste.pt/ # resistir 2020

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