À Mesa – Maçãs

Ando a sonhar com maçãs desde que participei num encontro sobre produtos tradicionais onde se falou, também, de maçãs. Deu-me depois para andar pela cozinha a cheirar as maçãs tentando perceber porque, apesar das recomendações da minha avó que tanto insistia “come maçãs, assim manténs o hálito fresco e os dentes rijos”, a maioria das vezes… não me apetece comer maçãs. Não é que não sejam lindas, não tenham uma cor apetitosa, não pareçam suculentas.

Mas, depois de provar, fica sempre aquela sensação de vazio na boca. Tantas vezes pensei porque era fruto proibido se a mim não me entusiasmava. O que eu não sabia é que para além do que o mercado nos oferece e que caiu facilmente numa monotonia alimentar dominada pelas Golden, Royal Gala, Starking e outras há um mundo por descobrir.

Foto de Olga Cavaleiro

É claro que todos nós já ouvimos falar da Bravo de Esmolfe ou da Riscadinha de Palmela, pois estas beneficiam de proteção de denominação de origem e conseguem já uma razoável penetração no mercado, no entanto, se calhar, nunca nos apercebemos como a geografia influencia a sua cor ou sabor. Será muito diferente comer uma maçã que é produzida em altitude ou uma outra que quase recebeu os salpicos do mar.

A primeira recebeu os maus tratos dos Invernos rigorosos que se fazem sentir nos planaltos próximos das Serras da Estrela, Montemuro, Caramulo, Lapa e Nave e que fazem com que a floração tardia seja abençoada. A segunda, recebe a influência do mediterrâneo tão caraterístico de todo o seu solar. É o sol luminoso, é toda a orografia da Serra da Arrábida, é o Oceano Atlântico ali ao lado, que “fazem” as riscas vermelhas de uma maçã que nunca deve ser apanhada antes do tempo certo. Se a Bravo Esmolfe aguenta a conservação, já a Riscadinha de Palmela obriga a um consumo logo após a colheita e não gosta do frio da conservação. Uma nasce na serra e outra nasce no mar… diferenças na geografia que se notam em tudo!

Mas podemos falar da Camoesa da Azóia, outra espécie que vem de perto do mar na zona de Sesimbra e que tem vindo a contar com todo o esforço para se tornar numa maçã apetecida pelo público. Depois de ouvir falar destas maçãs ditas de Inverno por serem postas a amadurecer em cima dos armários da cozinha estando no estado ótimo de consumo lá para o Natal, fiquei com imensa vontade de provar.

A que sabe uma Maçã de Inverno? Neste caso, para além do clima tão caraterístico desta zona que integra a Serra da Arrábida, temos os terrenos argilosos do Cabo Espichel que são ricos em ferro e que dão umas maçãs de sabor intenso e com elevado nível de antioxidantes e polifenóis. Lá diz o provérbio “Apara a maçã quem lhe há-de comer a casca”. Também quero provar uma maçã que vem das terras do Cabo Espichel, só a paisagem dá mais sabor à maçã…

Para terminar, não resisto falar da Maçã Porta da Loja. Variedade minhota que tem sido muito falada, é de maturação tardia e aparece no mercado no início da Primavera, sendo por isso que, em tempos era oferecida ao pároco na visita pascal. Afinal era a fruta da época disponível para oferta. Também se diz que no Natal era assada no forno e, depois, misturada com vinho verde tinto (vinhão) novo e açúcar. Eram as sopas de cavalo cansado tão diferentes das nossas do Baixo Mondego. Certo é que todas cansavam pelo vinho!

Ainda têm dúvidas que não precisam de comer sempre as mesmas maçãs?

Artigo publicado no Diário “As Beiras”

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