Diário – Produção nacional

Somos um país fantástico. Na aflição sabemos, sempre, correr uns pelos outros. Solidários sem olhar a quem e ao quê, dispostos a dar mais do que sorrisos, rápidos na mobilização, sentidos na emoção. Ainda me lembro do movimento que gerámos com a independência de Timor Leste. Fizemos chorar o mundo pelo nosso ato solícito para com um país tão pequeninho que fica do outro lado do mundo. Também agora, nestas últimas semanas, soubemos reconhecer o mérito de quem está na linha da frente e soubemos apoiar os invisíveis como os idosos, os sem-abrigo e todas as franjas mais vulneráveis. Perante o desmoronar da nossa pequena economia, fez-se um apelo à compra de produtos nacionais.

Foto de Olga Cavaleiro

Produção nacional, pequenos produtores locais, na sua grande maioria, distantes dos grandes centros urbanos mostraram a agonia da falta de escoamento dos seus produtos. Eu mesma fiz o apelo, vamos consumir local, não deixar cair Portugal. Com campanhas extraordinárias vindas de muitos setores públicos e privados deu-se a esperança a quem já a estava a perder. Fiquei feliz pelas novidades que nos chegavam da venda dos produtos, dos cabritos aos queijos Serra da Estrela. Somos mesmo um país fantástico que sabe estar sempre que é necessário. 

No meio do entusiasmo atrevo-me a pensar como podemos aproveitar todo este interesse e simpatia pela produção nacional fazendo-a crescer, melhorando-a, dando-lhe recursos de conhecimento e de boas práticas, ajudando-a a impor-se perante uma grande distribuição que quase sempre põe o ónus sobre o produtor.

Primeiro, há que pensar que não vale a pena andar a apregoar a produção nacional e a sua genuinidade se ela não for verdadeiramente de qualidade. Sim, porque não basta ter sido produzida pelo pequeno produtor para ser boa. Quantas vezes um pequeno produtor, ora por desconhecimento, ora porque é mal-aconselhado, utiliza produtos químicos agressivos e em quantidades excessivas? Comprar local exige que se conheça o produtor. E este precisa de conhecimento técnico para além do facilitismo e em fazer porque sempre foi assim. Segundo, é mais do que tempo de criar sistemas de qualificação acessíveis, práticos e que facilitem a vida do produtor ao invés de a complicar. Qualificar é uma obrigação, dar esse reconhecimento aos nossos produtos deve ser uma missão de todos nós. Terceiro, de que serve a grande distribuição vender os produtos locais se os preços a que os produtos são vendidos nem chegam para pagar o custo que o produtor teve? Vender sim, mas com dignidade. Pelo preço justo.

Esta coisa dos preços baixos, dos descontos, do mais barato, desgasta, destrói a produção alimentar. Estamos a falar de animais que tiveram uma vida e que agora são leiloados como se fossem peças caídas em desuso. Foram animais, demoraram a criar, que necessitaram de alimentação que não a de engorda, que necessitaram de acompanhamento veterinário para salvaguardar o bem-estar animal e a qualidade alimentar. Foram animais e não peças de plástico feitas em série.

Até me doi a alma quando ouço a loucura dos descontos e dos preços baixos a apregoarem produtos animais porque penso nos animais e nos produtores. Fico sempre com a sensação de que esse é mesmo um lado negro de uma sociedade que não consegue perceber a importância da produção alimentar em todo o sistema económico. Fica o produtor satisfeito apenas porque vende, mesmo a um preço que nem garante o custo de produção? Não basta dar acessibilidade ao mercado, há que garantir o preço justo. 

Queremos que o Portugal Gastronómico saia vaidoso de tudo isto. Que melhore a sua produção, que seja reconhecido, que venda pelo preço justo, que permaneça como garantia de qualidade. Mas para isso é preciso começar já a trabalhar e fazer desta oportunidade um momento de viragem na produção nacional. Se já fizemos tanto, embora lá fazer o resto!  

Texto publicado no site: https://etaste.pt/ # resistir 2020

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