À Mesa – Vinho

Habituámo-nos depressa demais a ver o vinho à mesa somente no copo, líquido acompanhamento que ajuda a deglutir o sólido presente no prato ou taça. Ouvimos que para este ou aquele receituário acompanha aquele ou este vinho, sendo quase pecado acompanhar determinados pratos com outra alternativa. Contra-natura, como se só o vinho ocupasse o espaço sagrado dos líquidos na mesa. No entanto, tal só reflete um dos dogmas mais fortes e cristalizados do Cristianismo, o vinho em sangue de Cristo transformado na Eucaristia, assim, redimindo os homens dos seus pecados. Princípio do Catolicismo, dupla face de um outro que afirma o pão, corpo do Senhor, depressa entrou nos hábitos e tradições da mesa portuguesa.

Foto de Olga Cavaleiro

De tal modo se cristalizou a diferença entre o líquido do copo e o sólido do prato ou da taça que vingou a divisão gastronomia e vinhos. Todos lhe reconhecem a cumplicidade e a ausência de sentido de um existir sem o outro, tais duas faces de uma mesma moeda, no entanto, uma coisa são os vinhos, outra será a gastronomia. Talvez falte descobrir que a união entre ambos é muito superior à mera cumplicidade exigida à “harmonização” entre o vinho certo para determinado receituário.

Como pensar uma boa chanfana sem o vinho tinto que amacia a carne e lhe retira o sabor algo difícil de disfarçar da cabra velha? E os negalhos, como os confecionar sem o vinho? A vinha d’alhos deliciosa e com um sabor tão acentuada, estratégia ora para conservar a carne, ora para a amaciar, ora para a tornar mais saborosa, não nos remete para o vinho? E um borrego ou um cabrito para nos deliciar não tem de ser lavado com um vinho branco ou verde antes de ir a assar de forma lenta e demorada? Peras bêbedas seriam bêbedas se não fossem mergulhadas em vinho tinto? Seria o bolo-rei tão saboroso se não fosse regado pelas aguardentes que as nossas avós retiravam no consumo para enriquecer esta sobremesa de Natal? E tantos biscoitos e massas doces, não ficariam significativamente mais pobres se não levassem Vinho do Porto, vinho licoroso ou qualquer aguardente? 

Às vezes, custa pensar que as divisões que injustamente criamos não permitem dar maior pujança e brilho a coisas que têm mais em comum do que a separá-las. Felizmente que na mesa o vinho não está só no copo, muitas vezes é a redução que dá maior sabor ao que está no prato. É o condimento líquido perfeito sempre à mão e que serve, hoje como no passado, para dar maior sabor aos alimentos.

O vinho é parte da gastronomia, não só porque acompanha, mas porque integra a receita, é o suporte líquido de maturação, de conservação, de enriquecimento do produto que está a ser consumido. Se a nossa gastronomia e vinhos já tem reconhecimento, imaginem se o nosso trabalho fosse além da harmonização?

Seria bom ver a associação natural entre ambos, ia dar muitos resultados positivos à nossa economia. E no fim, usávamos o vinho para o que ele tem de melhor, brindar à vida, brindar à família, brindar ao que mais gostamos, brindar ao que somos e ao que queremos ser. Brindar ao futuro!

Artigo publicado no Diário “As Beiras”

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