Diário

Mais do que nunca é preciso perceber que não existem modelos gravados na pedra e que estamos a tempo de mudar. Pode ser o momento certo para fazer mudanças que têm sabor a ousadia e vão ao encontro da vontade dos clientes. E estes querem tudo.
Gostava que as palavras que escrevo tivessem o cheiro da madressilva e a funcho. E o verde das árvores que fazem sombra no caminho crescesse no branco desta folha. Era bom, talvez assim conseguissem perceber como há sítios que nos dão paz e nos ajudam a pensar no que é o corre-corre dos nossos dias.
Se houve pena que me ficou no final do Inverno passado foi não ter conseguido ir a Penajóia por altura da floração das cerejeiras. Queria sentir o branco da flor que faz adivinhar o vermelho suculento e vibrante daqueles frutos tão apetecidos. Lembrei-me disso por estes dias quando percebi que já estamos na altura das cerejas.
Tal como aos outros a vida chama por mim e é tempo de cada um de nós seguir o seu ritmo. Apaixonada pelo meu país continuarei a ir ao encontro dos pequenos tesouros que nos encantam ao mesmo tempo que nos saciam a fome.
É claro que sinto a falta do mar. Dos amigos, muita. Mas, entretanto, descobrimos imenso. “Da lassidão nasce a disponibilidade” citei A. Camus numa das páginas, é mesmo muito verdade. A força que nasceu e está disponível dentro de nós queima-nos até nos desorientar. Sei que sim.
Hoje precisei fechar o computador e ir para a fora de casa. Mesmo assim, não quis ir passear para o meio das margaridas, não. Fui para o meio do alecrim dar ordem ao que era um emaranhado de ramos metidos nos marmeleiros. No entrelaçar do alecrim com aqueles galhos repletos de folhas verdes ainda tenras, até parece que renasci.
Eu sei, estamos fechados em casa. Mas não consigo resistir ao cheiro dos folares. Aos folares que tenho ao pé de mim e aos que imagino na minha cabeça. Àqueles que os meus amigos me iriam dar. Saudades das minhas viagens, também por isso.
Apesar de, ultimamente, apenas ver o mundo através da minha janela, gosto de pensar no imenso Portugal gastronómico que ainda me preenche a memória. Gosto de pensar nas minhas viagens que me deram a conhecer paisagens de cores atlânticas e mediterrânicas.
Esta noite sonhei com o cheiro a pão torrado. Senti o cheiro mesmo ali nos meus sonhos numa noite nada tranquila. É certo que se durante o dia recheamos os pensamentos com o sol, leituras, conversas e afins, a noite traz ao de cima os nossos maiores medos. Nem sabemos porquê, mas à noite ficamos indefesos.
Não, o mundo não vai mudar. Não acredito nisso. Depois disto não vamos estar diferentes do que fomos na nossa vida. Erguemos barreiras para nos protegermos pois de repente temos medo que o outro seja um agente de infeção, mas não vamos deixar de querer estar próximo dos outros.
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