Diário

Com a alma feita de espuma de mar e a necessitar tanto de sentir o sal a queimar a pele mais do que o sol, regresso a um poema feito de palavras lindas. Apesar da distância, senti o cheiro a maresia, as conchas soltas na areia, o fresco da brisa, a luz encantadora da manhã e a magia do crepúsculo, hora de todos os desejos. A noite foi feita de um azul escuro a deixar apenas escutar o bater das ondas na areia. Regressei ao meu pensamento ainda com o cheiro a mar.
A tempestade há-de passar e havemos de sentir a Primavera como se tivéssemos nascido agora e não conhecêssemos o amarelo inocente das margaridas, o verde fresco dos rebentos das árvores, o desafiante vermelho das papoilas tingidas de sedução e o branco, o lindo branco dos novelinhos e dos cachos das glicínias selvagens. Havemos de cheirar a Primavera como se fosse a primeira vez
Precisamos comprar ao vizinho, falar do negócio do amigo, espalhar a fama dos nossos produtos, reavivar o gosto por aquele vinho, queijo ou enchido, levarmos clientes às pessoas que estão no bairro, na aldeia ou vila do interior, às bancas de peixe ou de fruta no mercado da nossa cidade. Podemos fazer muita coisa, #resistir será sempre a nossa máxima.
Inspira-me a juventude. Eles têm a força, a calma, a lucidez, a esperança que às vezes nos falta. Poderemos pensar que é porque não têm encargos. Que se comportam assim porque estão tão ligados aos PC’s, às consolas, aos telemóveis, que nem conseguem ver o que se passa no mundo. Engana-se quem pensa assim. Estão conscientes e atentos. Sabem da gravidade da situação e querem ser parte da solução.
No negócio da restauração e da alimentação já surgem ideias para reinventar os modelos mostrando que nada está escrito na pedra e que há um mundo grande a descobrir. No meio do tumulto muitas serão janelas de oportunidade para fazermos diferente e que podem mudar o mundo, pelo menos aquele que conhecemos.
O país mantém-se a custo. Unidos na certeza de querer vencer a insegurança que o vírus Covid-19 nos trouxe, assistimos a movimentos desenfreados. Não se discute. Atira-se, dispara-se. É preciso agir no meio da tempestade, mas sem matar quem ousa pensar de forma diferente. Volto a dizer: o país mantém-se a custo.
A nossa fome pelas certezas é tanta que às vezes até nos esquecemos que o tempo vai ter que passar para que elas sejam seguras e nos caiam nas mãos como fruto maduro. No ponto.
A alimentação é muito mais do que se come e do que se bebe, é sempre a revelação de uma interpretação do que nos rodeia, mais distante ou mais próximo, do domínio do sagrado ou profano. É um olhar e nesse olhar estão as escolhas do que pomos dentro da panela e como apresentamos ao mundo essas escolhas. Fiquei feliz pela recolha deste provérbio muito famoso na terra quente transmontana “Trigo rolão e vinho vinagrão, trabalha tu enxadão”.
Sempre me fascinaram os Umbigos de Vénus que surgem em esperanças de muros. Chamo-lhes esperanças porque, em muros velhos, sem utilidade para o mundo, encontram poiso estas plantinhas de pétalas carnudas. Gosto de as olhar pelo contraste da pedra e do verde. Quase sigo o carreiro que desenham nos muros e penso no carreiro dos meus dias. Nem sempre o salto é de folha em folha. Não, não sempre é.
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