Diário – Há coisas que nunca mudam

Tudo se encaminha para um regresso à normalidade. Ainda que lento, o regresso acontece. Uns estarão felizes com a mudança, outros talvez nem tanto que as mudanças custam sempre, mesmo as muito desejadas. A mim custa-me ter perdido o silêncio que permitia ouvir com maior clareza o chilrear barulhento da passarada ao final da tarde. Mas sabíamos que ia ser assim, de um dia para o outro a vida regressaria ao normal. E a vila é grande e dá para escolher os sítios por onde passeamos. 

Foto de Olga Cavaleiro

É claro que o mundo sorri por recuperar a liberdade para uma caminhada ao sol ou para dar dois dedos de conversa com a família que já não vê há muito. E devemos ficar felizes uns pelos outros. Precisávamos tanto disto. Apesar da distância, das máscaras e das regras todas, que bom poder sair. Se será o momento certo, ninguém sabe, apenas sabemos que sabe bem. Tenho em mim que o povo português vais ser mais cauteloso do que se pensa. Mostrámos a ordem e civismo e não me parece que cada um de nós esteja disposto a deitar tudo a perder. 

É certo que temos pela frente desafios nem sempre fáceis. Para além das preocupações sanitárias, outras preocupações preenchem a mente de muitos portugueses, sobretudo, aqueles que têm empresas a seu cargo. Por isso, aguardamos pela concretização do anunciado estes dias quanto aos apoios prometidos às empresas. Esperemos mesmo que em tudo isto não haja dois pesos e duas medidas. Quanto ao futuro, não será catastrófico.

A almofada social dá folga a uma vontade de consumo. Apesar de dependentes da economia global e de a ênfase ter sido colocada no crescimento com o turismo externo, quero acreditar que vamos ter um Verão que vai sossegar as nossas ansiedades. Vamos escolher Portugal, como não poderia deixar de ser. E não é só porque queremos ajudar as estruturas turísticas, é também porque sabemos que os serviços são de grande qualidade. E no que respeita a oferta, há para todos os gostos. Da praia ao campo, dos desportos radicais ao turismo cultural, do interior ao litoral, do clima atlântico ao mediterrânico, do planalto à planície, do restaurante de cozinha de autor às novas tabernas.

O que andámos a publicitar pelo mundo fora e nos fez ganhar tantos prémios tem agora que ser demonstrado aos portugueses. Adivinho que vão gostar. Sim, talvez alguns preços tenham que ser ajustados, mas porque não pensar no mercado nacional? Sei quem vai gostar de ter tantos mimos, adivinho mesmo. 

O mundo não vai ser o mesmo, é o que mais tenho ouvido por aí. Talvez não seja bem assim. Primeiro, vamos todos continuar a gostar de férias e desejamos esse momento com todas as nossas forças. Segundo, há coisas que nunca mudam. O sol português à beira-mar que nos queima a pele, o mar revolto do norte e o mar quente do sul, as guloseimas mesmo à beira ou a caminho do mar, a hospitalidade portuguesa que nos comove, a montanha que nos tira a respiração, as nuvens no planalto que dão mais azul ao céu. Desconfio que, no final de tudo isto, ainda estaremos mais apaixonados por Portugal. Agir e fazer. O sorriso virá.

Texto publicado no site: https://etaste.pt/ # resistir 2020

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