À Mesa – Bolinhos e Bolinhós

Santoro, Santorinho, Santorão. Se as Beiras são um todo, não deixam de ter muitas partes. Assim é em relação às tradições do início do mês de Novembro, do Dia de Todos-os-Santos e dos Fiéis Defuntos. Se a matriz é comum até a outras partes de Portugal e do mundo, já a forma como se encontram matizes culturais é que fazem a diferença. Na matriz há que falar de como a morte é tema difícil desde sempre e como o homem “arrumou” as suas ideias, as suas emoções, as suas práticas em relação a isso ao longo dos tempos.

Fê-lo de acordo com os seus sentimentos, mas também de acordo com as coordenadas pagãs ou religiosas que predominavam no seu contexto geográfico e temporal. Certo é que, para além da crença, a morte sempre motivou respeito e os mortos sempre tiveram estatuto de “entidades” com poder sobre o mundo dos vivos. Por isso, no calendário das festividades e das celebrações sempre houve tempo para celebrar os mortos e pedir por eles. Antes em paz do que em conflito com estas “almas” já partidas do mundo dos vivos. 

Foto de Olga Cavaleiro

Nasce assim o ritual. Pagão, religioso, português, estrangeiro, não interessa. Interessa sim conhecer as cores que vestem este ritual de pormenores tão deliciosos que adoçam a noite escura do dia 31 de Outubro e a manhã friorenta de dia 1 de Novembro aquecendo os corações de quem participa pelos mimos recebidos.

Se pela Beira Litoral, sobretudo na zona de Coimbra e seus arredores, era comum ir na noite de dia 31 de Outubro, alumiados por uma abóbora feita candeia, pedir de porta em porta os “os bolinhos e bolinhos” já na Beira Alta e na Beira Baixa encontramos o pão Santoro. Pão de trigo, bem sovado (bem batido) com azeite e aguardente (para cortar a gordura do azeite), este pão era oferta aos catraios que, de cesta na mão ou sacola ao ombro, pediam o santoro, santorão ou santorinho. Para além do pão santoro vinham algumas moedas, algumas romãs (amarguedas), castanhas, figos secos, nozes, amêndoas ou outro fruto qualquer de Outono.

No final do dia era a felicidade total dos miúdos que, habituados à carestia, até coravam de alegria com tamanha fartura. Pedindo o Santoro pelos e para os que já tinham partido, evocava-se a sua memória e mostrava-se respeito. Se na origem está o pedir, em Dia-de-Todos os Santos, o pão Santo(ro) pelos defuntos, num período mais recente desta tradição, eram os mais novos que tiravam a barriga de misérias e tinham um dia de abundância. 

O pão Santoro era, ainda, oferta dos padrinhos aos afilhados e diz quem é da Beira Alta e da Beira Baixa que, por vezes, andava tudo à inveja para ver quem dava o pão maior ao afilhado. Sinal de prestígio, também pela oferta se percebiam as diferenças sociais. Os padrinhos mais pobres só conseguiam dar bolos de vintém que, embora sendo de trigo, só eram pincelados com azeite.

De tal modo, esta tradição ganhou raízes que, apesar de muitos já não se recordarem da prática do santoro, santorinho ou santorão em dia de 1 de Novembro, dia de Todos os Santos, perto da Guarda temos o muito conhecido Pão de Santoro da Pêga na freguesia com o mesmo nome.

Partes de um todo, este Pão Santoro ou, se pedido com carinho Santorinho, e os Bolinhos e Bolinhós são almas gémeas de uma mesma tradição a mostrar que o litoral e o interior não eram assim tão diferentes no sentir e no comer. O Portugal que nos une é mais forte do que a geografia que nos separa.

Artigo publicado no Diário “As Beiras”

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