Viagem a Tentúgal…

Encostado ao Mondego, Tentúgal surge na paisagem na imponência dos seus monumentos e com o doce sabor que o caracteriza, o Pastel de Tentúgal. Criado pelas mãos das irmãs professas no Carmelo de Tentúgal desde o século XVII, este doce tesouro distingue-se sobretudo pela sua delicada e fina massa e pela sua imensa e rica história. Estaladiço, com uma massa com uma espessura de quase transparência, o Pastel de Tentúgal  é o símbolo maior de toda a herança deixada pelas irmãs carmelitas à população de Tentúgal.

Créditos da Foto: Confraria da Doçaria Conventual de Tentúgal

Reconhecido como Indicação Geográfica Protegida desde 4 de Setembro de 2013, adquire cada vez maior projeção nacional e internacional, sobretudo, devido ao trabalho desenvolvido pela Confraria da Doçaria Conventual de Tentúgal.

Confraria da Doçaria Conventual de Tentúgal.

Esta instituição local criada, em 2007, com o objetivo de valorizar, defender e dignificar o património doceiro de Tentúgal foi iniciada por três acérrimos defensores da cultura local contando hoje com cerca de 40 confrades.

Porque o pastel de Tentúgal nasceu num Convento carmelita, foi na simbologia e no espírito da Ordem do Carmelo que a Confraria foi buscar inspiração para a definição das insígnias. Assim, quer a o traje, quer a insígnia, traduzem a importância que a presença carmelita teve na vila de Tentúgal. Para além de terem criado o pastel que é hoje o principal elemento económico da freguesia, as irmãs sempre foram um suporte nas aflições da população. Por isso, ainda hoje são recordadas com carinho e saudade pela população que no convento sempre encontrou aconchego.   

Créditos da Foto: Confraria da Doçaria Conventual de Tentúgal

A clara e objetiva relação entre o Pastel de Tentúgal e o património arquitetónico e histórico da vila que lhe deu nome, levou a que a Confraria incluísse na sua ação a valorização do Convento do Carmelo de Tentúgal, local de origem dos afamados doces.

Convento do Carmo de Tentúgal

Apresentada em Maio a toda a população, a Roda da Portaria foi recentemente recuperada sob o patrocínio da Confraria de Tentúgal. Principal elemento histórico vivo do Convento, a roda testemunha a clausura em que viviam as professas do Carmelo. Não obstante a clausura, muitos são os registos que evidenciam a grande proximidade entre a população e a comunidade carmelita. Pela roda, era um corrupio de dar e receber. Eram os doces, o pão, as esmolas, as ofertas ao Convento, as mezinhas da botica, os meninos expostos (sem mãe ou sem pai), enfim, a reciprocidade no seu melhor. Num sinal maior de agradecimento, ainda hoje a população de Tentúgal recorda não só os pastéis, mas sobretudo a companhia, os laços, as ofertas, e a presença afetiva de quem viveu a sua vida entre os muros do Convento.

Num contante trabalho na preservação do património herdado, a Confraria de Tentúgal prepara-se para patrocinar a recuperação da Torre do Relógio, edifício contemporâneo à presença moura no Vale do Mondego. Esperam, assim, contribuir para um dos elementos que ao longo dos séculos se manteve fiel na silhueta de Tentúgal possa ser, pela excelente vista que permite sobre a vila, mais um ponto a visitar nas visitas guiadas que a Confraria promove à vila.

Visitar Tentúgal

Aliás, criadas pelos confrades, as rotas da doçaria e do património permitem descobrir Tentúgal numa viagem pela sua história evocando os seus protagonistas e principais figuras. Pensado como uma forma de atrair visitantes ao núcleo histórico da vila, as visitas guiadas têm, também, permitido angariar verbas que são posteriormente investidas na preservação dos edifícios. Assim, os confrades dão o seu tempo, o seu conhecimento, a sua disponibilidade para que Tentúgal possa ser conhecido, não só pelos pastéis, mas também pelo seu património e história.

O doce tesouro do Baixo Mondego

Apesar do encanto que o Convento ou as Igrejas da Misericórdia ou do Mourão provoca no visitante, sabem os confrades que o que fica na memória de quem visita aquela vila do Baixo Mondego é, precisamente, o pastel de Tentúgal e o saber-fazer que a sua delicada e fina massa exige. Feita apenas com água e farinha de trigo, a massa apresenta uma elasticidade única devedora do enorme saber-fazer e conhecimento que as pasteleiras entregam todos os dias na sua produção.

Colocada sobre um estrado de madeira devidamente tapado com extensos panos brancos, a massa vai sendo sucessivamente esticada como se de um lençol se tratasse. Quem vê sai de Tentúgal surpreendido pela complexidade de todo o processo, admirado pela forma compassada como as mulheres se vão deslocando em redor do bolo de massa esticando-a até ficar mais fina que papel. No final, de joelhos, as pasteleiras cortam pequenas folhas de massa que irão, depois, receber o doce de ovos.  

ingredientes simples, saber-fazer único

De ingredientes simples como o açúcar, farinha, ovos e água, a complexidade encontra-se no saber-fazer das pasteleiras, verdadeiro segredo deste doce. A alma desta receita está nas mãos de quem a faz. Habituadas à rotina diária de um esforço quase perfeito, as pasteleiras executam o esticar da massa como se de uma dança se tratasse, bailando entre as bordas da massa qual onda que se espraia na areia.

Um espetáculo único, só nosso, saído do Convento do Carmelo e executado pelas sábias e experientes mãos das mulheres de Tentúgal. Um verdadeiro hino à perfeição. 

É toda esta riqueza cultural que os confrades de Tentúgal querem enaltecer e nunca deixar esquecer, por isso, desdobram-se em trabalho comunitário e publicam livros que versam sobre Tentúgal e sobre o pastel, preservam património, fazem visitas guiadas, recuperam tradições culturais há muito esquecidas, fazem divulgação fora de portas do seu doce mais famoso, enfim, vêm no seu trabalho associativo um modo de vida, uma obrigação necessária pela paixão pela sua vila.

 Não obstante os mil anos de história de Tentúgal, topónimo nascido da lenda do Tent’Igual,  no final, todos lembram os famosos, afamados, mui saborosos e bem conhecidos pastéis de Tentúgal. Com uma massa fina e transparente e um recheio cremoso, o pastel de Tentúgal desfaz-se na boca de quem o saboreia lembrando a fantástica história de um doce que quase se perdeu no tempo e no destino de um Convento encerrado em 1898.

Para trás ficaram os nomes de muitas e várias protagonistas, numa história que se faz no feminino, quer na produção, quer na coragem da divulgação que a todos orgulha. A Confraria procura evocar sempre a memória carmelita e a memória das mulheres que o trataram como um tesouro, o doce tesouro do Baixo Mondego.   

Artigo publicado na Revista Tabu (Semanário Sol) – 2015

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