Viagem a terras da Gândara…

A Geografia faz os Homens, mas os Homens também fazem a Geografia. Se tal é certo em relação a muitos pontos no globo, também na Gândara esse é uma convicção que descreve a revolução humana e geográfica deste pequeno ponto no mapa de Portugal. De um terreno inóspito e infértil os homens fizeram um naco de terra produtivo, de um local raro de vegetação fizeram os homens uma mancha verde, de uma terra despovoada fizeram os homens um local procurado para fixação humana. Esta é a história da Gândara, uma região assim denominada e que se situa entre Quiaios e Mira.

Riqueza nascida do esforço…

Na verdade, os gandareses fizeram a Gândara, fertilizaram os campos arenosos tornando-os produtivos, criaram uma barreira verde plantando várias espécies junto ao mar permitindo alguma proteção das culturas dos ventos fortes e corrosivos do mar e procuraram culturas que se adaptassem às condições geográficas daquele inóspito local. Foi a teimosia, o esforço e a convicção dos gandareses que fizeram da Gândara uma região rica, densamente povoada e plena de tradições culturais.

Talvez a crença e a convicção dos gandareses seja o que explica a nossa ligação à terra que nos viu nascer ou que nos acolheu na nossa viagem em busca de um lar. Talvez seja por isso, que após as vagas migratórias que a Gândara conheceu, muitos tenham regressado dando a entender que se ausentaram apenas para sentir saudade, apenas para terem oportunidade de regressar.

Confraria dos Aromas e Sabores Gandareses

É um apego e um orgulho, à terra que os homens fizeram fértil, ao mar ali tão perto, à floresta que se criou. Foi este apego e este orgulho que levaram à constituição da Confraria dos Aromas e Sabores Gandareses há uma década atrás por um grupo de tochenses. A gastronomia local, rica na diversidade e na qualidade, deu o mote para a constituição desta confraria sediada na Tocha. Contudo, a par da afirmação da memória gastronómica quiseram os confrades que a aproximação entre comunidades e entre pessoas fizesse parte dos objetivos cimeiros desta Confraria.

É notório a crença nos homens, na humanidade, naquilo que nos faz ser mais alma que matéria, pois para estes confrades a Confraria seria motivo de encontro entre pessoas gerando “sempre a aquisição de novos conhecimentos e novas amizades fortalecendo as já existentes”. De facto, quem conhece esta Confraria sente a amizade como um motivo da sua existência, um elo entre os confrades, uma aproximação às outras confrarias e aos outros grupos associativos. A Confraria dos Aromas e Sabores Gandareses é, sem dúvida, sinónimo de amizade e de boa confraternização sendo que a ligação entre os membros do grupo e entre o grupo e os outros está sempre em primeiro lugar.

A Gândara

A Gândara é um mundo que tem mundo, pela forma como nasceu, como evolui, como prendeu, como cresceu. Também na gastronomia esse mundo se sente e nos prende a atenção pelos sabores, aromas e texturas da Gândara. É essa riqueza que a Confraria divulga e não deixa esquecer, sobretudo, quando realiza o seu capítulo. Em Terras Gandaresas nasceu uma gastronomia rica, diversa e suculenta que mostra a arte e o engenho das gentes que ali cresceram. A ligação ao mar faz-se sentir pelas sardinhas assadas na telha, pela caldeirada de peixe, pela raia de pitau, pelo robalo ao sal e pelo bom peixe cozinhado de tantas e diversas formas.

Diversidade gastronómica

A ligação à terra sente-se na broa de milho, na sopa gandaresa, nas favas, no carneiro de casamento e nas inúmeras maneiras de cozinhar os produtos da terra e os animais de capoeira. São sabores fortes e intensos, é uma gastronomia de peso que sustentava o esforço de um trabalho árduo nas terras ou no mar. As práticas da Arte Xávega, ainda hoje utilizadas para a captura de peixe, eram antecedidas ou precedidas de um almoço feito ali mesmo na praia. As batatas com pele eram cozinhadas na areia aquecida com a ajuda de uma fogueira que, depois, serviria para assar as sardinhas ou o bacalhau. Com os recursos que tinham faziam um almoço delicioso acompanhado da broa de milho. É caso para dizer que não existem limites para a criação humana no que respeita à gastronomia e, isso, é muito visível na Gândara, local onde se procurou tirar partido do mar e da terra.

Turismo crescente

Longe dos tempos difíceis de outrora, a Gândara é hoje território de grande desenvolvimento cujas principais atividades económicas estão ligadas aos sector primário e terciário. A Tocha evidencia-se pela pujança económica, sendo que é no Verão que adquire maior destaque com a procura da praia como tempo e espaço de lazer. Contemplada, vários anos consecutivos com Bandeira Azul, a praia da Tocha é destino de férias de muitos que ali procuram não só a calma a tranquilidade dos dias de Verão, como também a tipicidade de um local que soube manter os traços principais do seu passado. Os Palheiros da Tocha, outrora habitação remediada dos pescadores que tentavam a sua sorte no mar, é hoje motivo de atração turística mantendo uma singularidade no que respeita aos espaços habitacionais.

Nas cerimónias capitulares, motivo de encontro, quer entre confrades que a vida levou para outros locais, quer com outras confrarias com quem se criaram laços de profunda amizade, a Confraria dos Sabores e Aromas Gandareses surpreende sempre pela espontaneidade e simplicidade do momento. Tudo o que importa está lá. As pessoas que se juntam, a cerimónia que se sente, a gastronomia que nos arregala os sentidos e nos diz o que é a gastronomia tradicional. No final, esta Confraria continua a surpreender pela humanidade que transpira na sua atividade. Todos os proventos conseguidos são encaminhados para instituições de solidariedade social ou para os mais carenciados.

É a fraternidade, penhor e elo entre confrades, ao seu mais alto nível. É a solidariedade que enternece e nos faz admirar estes homens e mulheres da Gândara. É uma forma de viver Confraria que é exemplo para todos os que escolhem a fraternidade como modo de vida.

Artigo publicado na Revista Tabu (Semanário Sol) – 2015

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