Viagem à Murtosa…

A ria exibe-se com todo o esplendor quando navegada por um barco Moliceiro. É a cor que se espraia pela água, é a presença humana que se mostra, é a prova da interação entre o homem e a ria. Antes embarcação de trabalho, é hoje símbolo cultural e identitário de toda a Ria de Aveiro e, sobretudo, motivo de atração a esta zona do litoral português. Todos os turistas, visitantes ou curiosos da Ria querem conhecer o microcosmo lagunar a bordo de um barco Moliceiro.

Crédito da foto: Confraria Gastronómica “O Moliceiro”

Moliceiros

Em tempos idos, era nos Moliceiros que se transportava o “moliço” que se apanhava na ria e que servia para fertilizar as terras agrícolas de toda a região de Aveiro. Difíceis os tempos, era o Moliceiro, muitas vezes, a casa onde vivia uma família onde todos ajudavam nas tarefas de trabalho. De tão e farto carrego de moliço, às vezes viravam-se os moliceiros para grande aflição de quem o manobrava ou que ali vivia. Era o tempo em que o ciclo dos homens era também o ciclo da natureza e em que o tempo dos homens se entrecruzava com o tempo da Ria.

Passados os tempos em que se vivia do que a Ria dava, passou o Moliceiro a ser um símbolo. Celebrado nas artes como uma marca dos territórios da Ria, o Moliceiro foi a inspiração para a constituição de uma Confraria que através dele faria em juramento a defesa de todo o ambiente cultural e gastronómico associado aquele monumento geográfico.

Confraria Gastronómica “O Moliceiro”

Foi na Murtosa, em Fevereiro de 2000, que nasceu a Confraria Gastronómica “O Moliceiro”. Tendo sido este município um espaço privilegiado na construção destas famosas embarcações, pensaram estes confrades conseguir, assim, chamar a atenção para os moliceiros e para o património paisagístico, gastronómico e cultural que eles representam.

Vestidos de gabão preto, exibem ao peito um barco moliceiro em bronze que pende de uma corda com nós de marinheiro. São homens e mulheres da Ria que sentem o pulsar da vida que ali cresce. Ainda que na contemporaneidade, a Ria ainda continua a marcar a sua vida e, por isso, não raras as vezes juntam-se ao fim-de-semana na sua sede, no Cais da Ribeira de Pardelhas, onde brindam os sentidos com os petiscos que a Ria dá.

Os petiscos da ria

As enguias servidas, ora fritas com molho de escabeche, ora em sopa ou em caldeirada chamam os amigos que estes confrades vão conquistando pelo país. A lampreia tem a honra de ser servida em arroz ou à bordalesa e o sável serve-se frito com molho de escabeche.

Em reconhecimento desta riqueza gastronómica, esta Confraria desenvolve, por alturas de Março ou Abril, o Festival Gastronómico da Lampreia e do Sável e, em Outubro, o Festival Gastronómico da Enguia. Na verdade, a força desta Confraria é a força do grupo, pois todos contribuem para um plano de atividades que contempla, ainda, os passeios de cicloturismo e as caminhadas no ambiente plano, calmo e tranquilo da Ria e os passeios gastronómicos em plena Ria a bordo dos barco moliceiros. Recebem na Ria como ninguém e com eles conhecemos a sua geografia, a sua fauna e a sua flora para além dos cartazes turísticos.

Murtosa

Murtosa, município do centro litoral inserido na Ria de Aveiro, alberga inúmeros esteiros, ribeiras, cais e ancoradouros que se ligam pelos trilhos da NatuRia. São percursos que se podem fazer a pé em tranquilas caminhadas ou de bicicleta sentindo as diferenças dos espaços da Ria. Num município onde a bicicleta é um meio de transporte alternativo muito apetecido, os visitantes são convidados a utilizar a bicicleta e a descobrir um mundo que o automóvel não deixa sentir. Da parte das autoridades municipais sente-se a convicção e a vontade em afirmar este território como um local apetecível para a utilização da bicicleta como transporte e, por isso, são feitos investimentos que favorecem esta causa.

Indústria conserveira

A Ria deu muito à Murtosa e, ainda, hoje é promotora das principais atividades que sustentam a população, a pesca e a agricultura. A indústria conserveira da Murtosa assume, igualmente, grande destaque, sobretudo, as conservas de enguias que fazem a imagem de marca deste sector económico murtoseiro. Embaladas e decoradas com motivos locais, as conservas têm grande história na Murtosa tendo sido inaugurado recentemente a COMUR – Museu Municipal da Murtosa. Neste espaço pode-se descobrir como nasceu e se desenvolveu a indústria conserveira na Murtosa e como se transformou num símbolo identitário local.

A Ria de Aveiro espalha-se por um amplo território e na Murtosa assume características próprias que o povo murtoseiro soube aproveitar. A Confraria Gastronómica “O Moliceiro” é também prova dessa singularidade na idiossincrasia que apresenta. Um grupo de confrades que se distingue pela força de trabalho que imana, pela certeza com que constrói relações com os outros, pelo orgulho que mostra da sua terra, pela simpatia com que recebe a beleza e o sabor de outras confrarias. A fraternidade e a amizade vive-se aqui como se fosse feita de nós de marinheiro. Indestrutíveis, que prendem sempre que é preciso, que largam sempre que tal se mostra necessário.

Para conhecer esta confraria, o melhor é mesmo ir até ao Cais da Ribeira de Pardelhas e saborear na boa companhia destes confrades uma boa caldeirada de enguias. Lá mesmo, sob a sombra dos pinheiros mansos, nas mesas de madeira que têm a luz, os cheiros e as cores da Ria como testemunhas, descobre-se porque é que a Confraria “O Moliceiro” defende os sabores da Ria.

Descobre-se porque o Moliceiro abraça aquele povo, é nele que este canta e vive a vida, é nele que se encontra a magia do encontro entre o céu e terra que se faz pela Ria.      

Artigo publicado na Revista Tabu (Semanário Sol) – 2015

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