Viagem a Boticas …

Nome grande nas raças autóctones, a Raça Barrosã impressiona não só pela excelência da carne, mas também pela imponência do animal, sobretudo, pela forma, espessura e cor da armadura. O olhar doce e terno, sobretudo, das fêmeas contrasta com uma portentosa armação córnea que se projeta na vertical em forma de lira. Já os machos intimidam pelo olhar destemido com que nos encaram e pela rara corpulência que exibem. Raça antiga na geografia portuguesa, deve o seu nome pela ligação ao Planalto do Barroso, essas terras onde a pobreza constante derivado de um solo pouco fértil e de uma demografia ausente fez com que se criasse um elo especialmente forte entre o homem e o bovino barrosão.

Barrosã, símbolo de riqueza

Símbolo de riqueza para as gentes do Barroso, é olhado e exibido com orgulho por quem o lida e com ele conta para fazer face às dificuldades da vida. Auxílio no trabalho de cultivo das pequenas leiras, porções de terra permeáveis ao cultivo, o gado barrosão era valorizado, sobretudo, pela carne que já no século XIX era exportada em grande escala para território da Grã-Bretanha. Também a manteiga feita a partir do leite era muito valorizada, sendo que o conjunto permitia algum sustento para as famílias habituadas a viver no isolamento e com parcos recursos. 

Alturas do Barroso
Foto de Olga Cavaleiro

A paisagem agreste e aconchegada pelas serras do Larouco, do Gerês, da Cabreira e das Alturas também conhecida como Serra do Barroso, deu ao homem a certeza de que a sobrevivência passaria pelo forte relacionamento comunitário e com a valorização do animal barrosão. Na verdade, as dificuldades derivadas de uma geografia acidentada e um clima austero, quer no Verão, quer no Inverno, levou os homens daquelas terras altas a investirem num pastoreio coletivo permitindo, assim, a partilha de custos com grandes benefícios para economias tão isoladas.

Os rebanhos de vezeira eram uma forma simples de utilizar recursos comuns para reses de diferentes produtores em alturas que o pastoreio chegava a durar desde Maio até ao dia de São Miguel. Assim, um rebanho de vezeira reunia vários animais pertencentes a várias pessoas que eram depois levados em pastoreio em lugares de pasto comum. Regulado por regras muito próprias, o pastoreio obedecia, sobretudo, à larga experiência que os pastores se habituaram a seguir pela observação da interação natural do gado barrosão com a natureza. Pormenor curioso que marca a tendência comunitária de quase todo o território transmontano, mostra como na força do grupo os homens sobreviviam às dificuldades.

Confraria Gastronómica da Carne Barrosã

Porque a memória comum de Terras de Barroso é credora da presença desta raça autóctone do Norte de Portugal, foi impulso comum a constituição da Confraria Gastronómica da Carne Barrosã. Com o traje mais bonito de todas as Confrarias de Portugal, os confrades surgem com um traje que em todos os seus pormenores mostram a identidade daquela parcela montanhosa de Portugal. Símbolo da vida de montanha, a capa mostra como se protegiam da chuva, do vento e do frio os pastores que levavam o gado a pastorear. A adornar este manto de burel, destacam-se os bordados coloridos tão característicos do Minho e os arreios usados nos bovinos de Raça Barrosã.

Uma visão bonita de se ver pela riqueza etnográfica e pela mensagem que nos deixa sobre a importância desta raça autóctone que, apesar de ancorada nas terras do Barroso, se disseminou para território minhoto. Também por isso, o chapéu de três bicos, tão tradicional nas romarias minhotas e, especialmente, nos concursos pecuários da Raça Barrosã, é parte integrante do conjunto de símbolos que o confrade exibe. A vara de aguilhão, que é pertença efetiva de cada confrade e não apenas de quem preside, mostra o respeito que quem conduzia o gado fazia impor na relação com os bovinos. A completar este imponente traje a insígnia com a reprodução de uma cabeça de vitelo de Raça Barrosã dirige a atenção para a razão de ser desta Confraria nascida em 2001, a excelência, tenrura e juventude da Carne Barrosã já reconhecida como Denominação de Origem Protegida (DOP).

A Raça Barrosã DOP

O reconhecimento da singularidade desta raça autóctone através da classificação DOP contribui sobremaneira para a valorização de uma raça que, por motivos vários, quase se perdeu e que sempre foi pilar da economia deste território. Numa geografia acidentada dominada pelo granito e pelo xisto com as parcelas de terreno fértil a circunscreverem-se aos lameiros, o povo barrosão investiu na valorização do bovino de Raça Barrosã até porque podia contar com os prados naturais e os baldios para pastoreio.

Perante estas condições ajustadas entre homem e natureza, a gente de Terra de Barroso soube ver na Raça Barrosã uma força de trabalho e uma potencial fonte de rendimento já que a agricultura teria necessariamente de ser escassa e de subsistência, até pelo clima pouco favorável a grandes plantações. A carne, o leite, a manteiga, o estrume, a ajuda na pouca agricultura fez com que o investimento na Raça Barrosã fosse grande e que, assim, se desenvolvesse uma raça de características tão próprias.

A obtenção da Denominação de Origem Protegida pela Associação de Produtores de Carne Barrosã foi uma das medidas essenciais que permitiram o desaparecimento ou abastardamento desta importante raça que constitui a Dieta Continental, integrante da Gastronomia Portuguesa. Vendida em circuitos próprios, a carne barrosã (vitela, novilho e vaca) com o selo DOP é obrigatoriamente obtida a partir de animais de Raça Barrosã inscritos no Livro Genealógico. Sujeitos a um controlo bastante exigente, todas as vertentes são amplamente determinadas pelo Caderno de Especificações definido pela Associação de Produtores de Carne Barrosã.

A alimentação destes animais feita em pastos próprios ou em baldios é constituída por forragens verdes e conservadas como erva, palha e feno sendo que, em períodos de crescimento é dada a farinha de milho como suplemento. Todo o controlo efetuado sobre a criação destes bovinos resulta numa carne muito suculenta, tenra e extramente saborosa. Versátil na utilização em receitas, comida por Terras de Barroso terá, decerto, outro sabor, sobretudo se na boa companhia dos confrades amigos da Confraria Gastronómica da Carne Barrosã.  

Voltamos ao ponto de partida, a imponente elegância da armadura córnea, que nos machos castrados chega a atingir quase dois metros de altura, impõe respeito, atrai o olhar de quem se deixa impressionar por um animal que é o símbolo de um povo. A roçar o paganismo e em total e consentida interação com as crenças, tal a atração iconográfica e simbólica do bovino de Raça Barrosã, traduz a impetuosidade, a força, a determinação em vencer as dificuldades decorrentes de uma geografia adversa.

A adversidade resultou numa raça que foi pelo homem e pela natureza cultivada, apurada, selecionada, construída na comunhão perfeita entre homem, animal, natureza. Aliás, a própria natureza reverencia uma raça que aqui encontrou guarida e aqui fez o centro do seu solar, pois no ponto mais alto da Serra do Barroso ou das “Alturas” descobrem-se os “Cornos do Barroso”, dois coutos que a natureza desenhou em forma de chifres dos bovinos de Raça Barrosã.

É a natureza em todo o seu esplendor a lembrar que o acaso não existe, é um todo que se descobre quando damos o melhor de nós. Uma certeza, de facto, na Confraria Gastronómica da Carne Barrosã na defesa e valorização desta raça autóctone.

Artigo publicado na Revista Tabu (Semanário Sol) – 2015

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